Em 1950 com a política de implantação de pequenas propriedades no sul do então Mato Grosso,cria-se a Colônia agrícola Nacional de Dourados (CAND) no então governo de Getúlio Dorneles Vargas que ,em 1977 surgiria como o atual nome de Mato Grosso do Sul. Essa política de colonização atraiu muitas pessoas para essas terras férteis e de graça. Pessoas como o baiano Argemiro de Oliveira popular ``Zé Brasil`` assim carinhosamente chamado pela sua esposa Dona Nieta,mas os colonos o conheciam como Zé Baiano.
Saído em 1948 de uma vila muito pequena chamada Guanambi na Bahia,queria tentar a sorte em outras terras,primeiro veio para São Paulo onde trabalhou como operário na fábrica de pneus Goodyear ,(onde trabalhou por dois anos)mas suas raízes sempre foram ligadas a terra. A política do governo Vargas conduziu Zé Brasil para a região sul de Mato grosso,para ser mais exato para a região onde hoje conhecemos como Panambi ( Aldeia do Panambizinho).
Chegando a região em março de 1950 as terras no Panambi já tinham sido ``cortadas`` o administrador da colônia mandou ele então aguardar surgir um lote por desistência pois a venda era extremamente proibida pela administração da colônia. Sem saída,se empregou como trabalhador diarista para um paraguaio (que não lembra mais o nome,pois agora em maio próximo vai completar 90 anos bem lúcido segundo ele), a terra era muito boa o que se plantava dava muito ,trabalhando por dia fui ``ajuntando `` dinheiro para trazer sua esposa Dona Nieta que tinha ficado lá na Bahia com o primeiro filho Jair,que viriam ter mais dois filhos Jamir e por último o Jaime.
Está vida dura foi até dezembro de 1950,quando um Paraguaio por nome de Alcides decide ir embora da colônia e faz a proposta da venda,mas com muito cuidado pois se o administrador da colônia soubesse todos perderiam a chance de ter terra. Assinado a desistência da terra e no mesmo momento seu Argemiro assina a posse do seu primeiro lote(anos após consegui adquirir mais três),pagou o paraguaio com 600,00 cruzeiros que tinha ganhado trabalhando por dia( o Paraguaio queria ir embora pois já era de idade e tinha casado com uma menina muito mais nova do que ele e a mesma não queria ficar no meio do mato).O lote só tinha um capão limpo onde tinha uma casa de pau a pique e um chiqueiro que tinha uma porca bem magra. ``Agora já dá pra trazer a Nieta para o Mato Grosso.``
A expressão Mato Grosso era bem verdade pois era muito mato em volta de tudo que se via,trabalhava-se desde que clareava até a hora que anoitecia pois nesta época tinha muita onça por essa região,tinha muita caça e muito peixe,mas eu quase nunca ia atrás pois eu trabalhava até domingo só guardava o dia de ``Finado` . Derrubei na primeira leva 5 alqueires de mata,coloquei fogo e as chamas chegavam a uns 5 ou 7 metros de altura coisa feia de se ver. A administração da colônia disponibilizava sementes, mas as únicas que me arrumaram foram as de arroz o que nunca tinha plantado na Bahia, era o que tinha,após plantar tudo na ``matraca ` veio uma chuva muito boa o que me deixou muito animado. Mas tinha que continuar derrubando a mata pois meu lote era pequeno com 12 alqueires. A administração da colônia pedia pra deixar uma reserva de mata,mas ninguém fiscaliza e derrubei tudo(hoje me arrependo de ter feito isso).
Os meus vizinhos eram índios e constantemente trabalhavam comigo,nessa época eu pagava eles com comida e fumo. Quando colhi a minha primeira roça de arroz foi uma festa,muito arroz colhido o que deixava qualquer um muito feliz.
Nesta época Dourados tinha um pouco mais de meia dúzia de casa,sair da colônia (Panambi) era muito difícil,era quase um dia a pé e meio a cavalo,vim a pé mesmo e a uma única máquina de beneficiamento de arroz foi onde vendi todo o arroz,voltei pra casa com as ``burras cheia de dinheiro ``(espécie de uma bolsa),comprei primeiro umas vacas pra dar leite aos meninos.
Comecei uma nova roça muito mais animado e agora com dinheiro no bolso,agora pagava os índios com dinheiro vivo isso era muito raro nesta região.
Guardar dinheiro por aqui era difícil pois não tinha banco, o banco mais próximo era o do Paraguai (Ponta Porá) era dois dias de viajem tinha que dormir por lá e depositar o dinheiro e voltar na mesma hora por que senão tinha que novamente pernoitar.
Comprei um Jipe Willis (verde Cana) novo na Loja,muito lindo que era pra andar mais rápido e levar a Nieta para a igreja ` `ela é muito católica ``. Com muito trabalho comprei meu segundo lote (agora não mais escondido como o primeiro,num total de quatro só este ultimo deixei um pouco de mato,sempre ouvia falar que os índios que tinham lotes trocavam a terra por cavalo,espingarda e outros,mas nunca tive sorte de encontrar )os meninos já estão grande e me ajudam muito na roça,me tornei um homem rico tudo que comprava pagava á vista. Trabalhava muito com os índios até gostava deles e eles de mim,cheguei batizar um guri deles na igreja católica.
O trabalho foi muito duro as coisa só melhoraram em Dourados quando veio o primeiro Banco do Brasil,o prefeito era o Jorge Adão Almeida de Morais(PMDB),ai dava pra depositar o dinheiro aqui na cidade,o que era bom pois trazia o desenvolvimento,como de fato cresceu muito. Na colônia,ocorreu que aqueles colonos que não tinham condições de plantar foram obrigados a ir embora da terra.
Mas o mais triste foi quando tivemos que deixar nossas terras que foram conquistadas com muito suor,pensa na vergonha de um homem com mais de 85 anos ser mau tratado pelo governo do FHC,deixar pra trás a casa da Nieta que ela sonhou a vida inteira,agora era a hora de descansar e viver com meus netos e ver o fruto de tanto trabalho. Não tenho raiva dos índios que estão ocupando as terras que eram minhas,o barracão onde guardava sementes e as máquinas foram arrancados e vendidos,da casa até os batentes das portas foram arrancados,isso dói muito(chora e as lágrimas desse dos olhos,Dona Nieta sem falar nada concorda quieta).
Retirar os colonos da terra não resolveu o problema dos índios,com a colônia do Panambizinho como eles a chamam continuam morando em casas de pau a pique como foi no início,a diferença,hoje do Panambi é muito grande onde se produziu muitos alimentos hoje só cresce mato,muito mato. Até entendo que eles precisem de terra mas desta forma não foi a mais acertada pelo FHC,nem os índios estão contentes com a posse da terra,pois vivem muito mau.
Fomos colocados na Terra do Boi no município de Juti,a terra é até boa,mas não produz como a que tínhamos,deixei de ser agricultor e passei a ter umas poucas vacas na terra e já não tenho mais as mesmas forças para tocar essas terras ,pois minha morte esta próxima(o que um homem de 90 anos pode esperar do futuro,a morte). Todo o trabalho que tive para desenvolver nessa região escolhida pra viver foi em vão,foi a maior decepção da minha vida e hoje convivo com a dor de ver abandonado o meu pedaço do paraíso aqui na terra que um dia foi o Panambi.
Professor.:Dantas
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